quinta-feira, 25 de maio de 2017

Como o feminismo se tornou a empregada do capitalismo – e como resgatá-lo
“Um movimento que começou como uma crítica da exploração capitalista terminou contribuindo para ideias-chave de sua mais recente fase neoliberal”.
Por Nancy Fraser | Trad.: UniNômade Brasil
Como feminista, sempre entendi que ao lutar para emancipar as mulheres eu estava construindo um mundo melhor — mais igualitário, justo e livre. Mas ultimamente comecei a desconfiar que os ideais desbravados pelas feministas têm servido para fins bem diferentes. Eu me preocupo, especificamente, que a nossa crítica ao sexismo esteja agora servindo de justificativa para novas formas de desigualdade e exploração.
Numa virada cruel do destino, temo que o movimento pela libertação feminina tenha se enredado perigosamente com os esforços neoliberais de construir uma sociedade de livre mercado. Isto explicaria como pode ser que as ideias feministas, antes parte de uma visão radical de mundo, cada vez mais têm sido expressas em termos individualistas. Se antes feministas criticavam uma sociedade pró-carreirismo, agora aconselham as mulheres a se envolver mais nas carreiras. Um movimento que antes priorizava a solidariedade social e agora celebra empreendedores femininos. Uma perspectiva que antes valorizava o “cuidado” e a interdependência e agora encoraja o crescimento individual e a meritocracia.
Atrás do deslocamento, reside uma mudança profunda da natureza do capitalismo. O capitalismo administrado pelo estado do período pós-guerra cedeu o lugar a uma nova forma: capitalismo “desorganizado”, globalizado, neoliberal. O feminismo de segunda geração que emergira como crítica do primeiro se tornou a empregada do segundo.
Olhando bem de perto o que aconteceu, podemos agora perceber que o movimento pela libertação das mulheres apontava simultaneamente para dois futuros possíveis. No primeiro cenário, a prefiguração de um mundo em que a emancipação de gênero caminhava lado a lado com a democracia participativa e a solidariedade social; no segundo, a promessa de nova forma de liberalismo, capaz de conceder às mulheres, assim como aos homens, as benesses da autonomia individual, maior capacidade de escolha e crescimento meritocrático. O feminismo de segunda geração foi, nesse sentido, ambivalente. Compatível com ambas as visões de sociedade, ele acabou suscetível a duas elaborações históricas distintas.
Como eu vejo, a ambivalência do feminismo foi resolvida nos anos recentes em favor do segundo cenário, o liberal-individualista — mas não porque éramos vítimas passivas das seduções neoliberais. Pelo contrário, nós mesmas contribuímos com três ideias importantes para que isso acontecesse.
Uma contribuição foi a nossa crítica do “salário familiar”: o ideal de um macho provedor da mulher, tão central no capitalismo organizado pelo estado. A crítica feminista desse ideal agora serve para legitimar o “capitalismo flexível”. Afinal, essa forma de capitalismo depende muito do trabalho assalariado da mulher, especialmente dos trabalhos mal remunerados nos setores dos serviços ou manufatureiros, realizados não somente por mulheres solteiras jovens, mas também por mulheres casadas e com filhos; não somente por mulheres racializadas, como também por mulheres virtualmente de todas as nacionalidades e etnicidades. Na medida em que as mulheres se espalharam pelos mercados de trabalho do mundo, o ideal do “salário familiar” vem sendo substituído por uma norma mais nova e moderna— aparentemente abençoada pelo feminismo — da família com dois assalariados.
Pouco importa que a realidade debaixo do novo ideal sejam níveis depressivos de salário, baixa segurança no emprego, declinante qualidade de vida, um aumento drástico do número de horas trabalhadas por família, a exacerbação da dupla-jornada — hoje geralmente tripla ou quádrupla — e um aumento na pobreza, cada vez mais concentrada nos lares encabeçados por mulheres. O neoliberalismo doura a pílula ao elaborar a narrativa do empoderamento feminino. Invocando a crítica feminista contra o “salário família” para justificar a exploração, o neoliberalismo amarra o sonho da emancipação das mulheres na correia do motor da acumulação de capital.
O feminismo também deu uma segunda contribuição ao ethos neoliberal. Na era do capitalismo organizado pelo estado, nós corretamente criticamos uma visão política estreita, que era tão intencionalmente focada na desigualdade de classe que não podia ver tais injustiças “não-econômicas”, tais como a violência doméstica, o abuso/assédio sexual e a opressão reprodutiva. Rejeitando o “economismo” e politizando o “pessoal”, as feministas alargaram a agenda política, a fim de desafiar as hierarquias sociais embutidas nas construções culturais de gênero. O resultado deveria ter sido expandir a luta por justiça, para englobar tanto a cultura quanto a economia. Mas o resultado real foi um foco unilateral na “identidade de gênero”, às custas das lutas do “pão e manteiga”. Pior ainda, a virada feminista à política da identidade se encaixou à perfeição num neoliberalismo ascendente, que queria nada mais nada menos do que reprimir toda memória de desigualdade social. De fato, nós absolutizamos a crítica do sexismo cultural precisamente na hora em que as circunstâncias requeriam uma atenção redobrada na crítica da economia política.
Finalmente, o feminismo contribuiu com uma terceira ideia ao neoliberalismo: a crítica do paternalismo do estado de bem estar social. Inegavelmente progressista, durante o período do capitalismo organizado pelo estado, aquela crítica desde então vem convergindo com a guerra do neoliberalismo contra o “estado babá” e seu mais recente abraço cínico das ONG. Um exemplo que diz muito consiste no “microcrédito”: o programa de pequenos empréstimos bancários às mulheres no sul global. Considerado como uma alternativa “desde baixo” e empoderadora, em relação a programas estatais “desde cima” e excruciantemente burocráticos, o microcrédito é incensado como antídoto feminista para a pobreza e sujeição das mulheres. Esquece-se, contudo, da perturbadora coincidência: o microcrédito floresceu rapidamente assim que os estados abandonaram esforços macro para lutar contra a pobreza, esforços que empréstimos de pequena escala não tem como substituir. Nesse caso, igualmente, a ideia feminista foi incorporada pelo neoliberalismo. Uma perspectiva voltada originalmente para democratizar o poder do estado, de maneira a empoderar os cidadãos, é agora usada para legitimar a mercantilização e a amputação do estado.
Em todos esses casos, a ambivalência do feminismo tem sido resolvida em favor do individualismo (neo)liberal. Mas o outro cenário, da solidariedade, pode estar ainda vivo. A crise presente abre a chance de retomar o fio mais uma vez, religando o sonho de libertação das mulheres com a visão de uma sociedade solidária. Para isso, as feministas precisam romper a ligação perigosa com o neoliberalismo e reconquistar as nossas três “contribuições” para os nossos próprios objetivos.
Primeiro, precisamos romper a ligação espúria entre a nossa crítica do salário familiar e o capitalismo flexível, militando por uma forma de vida descentrada do trabalho assalariado e valorize atividades não-salariais, incluindo, mas não apenas, o cuidado. Segundo, nós poderíamos desviar a passagem de nossa crítica ao economismo à política da identidade: integrando a luta pela transformação de uma ordem hierárquica, embutida nos valores culturais machistas, com a luta por justiça econômica. Finalmente, poderíamos dissolver o cimento falso entre nossa crítica à burocracia e o fundamentalismo do mercado livre, reivindicando o manto da democracia participatória como um meio de fortalecimento dos poderes públicos necessários para, em prol da justiça, conter o capital.—
Tradutor: Bruno Cava

terça-feira, 7 de março de 2017

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O fim do silêncio

Olá, ,

O aborto clandestino é uma das maiores causas de morte entre as mulheres no país. As principais vítimas são as mulheres pobres e negras, que também são as mais suscetíveis a uma acusação criminal.

Com a chamada Primavera das Mulheres, onde uma nova geração de ativistas vem tomando as ruas e as redes, a descriminalização do aborto tem sido cada vez mais debatida como uma questão de saúde pública no Brasil.

Contudo, a produção brasileira de filmes que abarcam esses relatos ainda é escassa. Justamente por esse motivo, a diretora Carol Rodrigues resolveu colocar o dedo na feriada em A Boneca e o Silêncio, que conta a história de uma menina da periferia de São Paulo que decide interromper uma gravidez indesejada. Silenciada por homens, Marcela se sente sozinha.

Em destaque, outros filmes que dão protagonismo às mulheres, discutem seus direitos e representatividade e afirmam a igualdade de gênero. 
Equipe Porta Curtas
 
A Boneca e o Silêncio
A solidão de Marcela, uma menina de 14 anos, que decide interromper uma gravidez indesejada. 

Detalhes da obra 
Gênero: Ficção
Diretora: Carol Rodrigues
Duração: 19 min


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

LINCHAMENTO MORAL
Divina Valéria: ‘Grandes vítimas do acidente aéreo em Paraty são duas mulheres’



Acidente mostra tráfico de influência, falta de decoro, promiscuidade nas relações entre poderosos, o uso e o descarte de seres humanos – como a massoterapeuta Maíra e sua mãe, que era professora

São Paulo – A transformista e cantora Divina Valéria publicou hoje em sua página no Instagram estar comovida e ao mesmo tempo chocada com a hipocrisia manifestada nas redes sociais, nas quais a massoterapeuta Maíra Panas, e sua mãe, a professora Maria Hilda Panas, têm sido moralmente linchadas. As duas estavam no avião que levava o ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, seu amigo, o empresário Carlos Alberto Fernandes Filgeiras, e o piloto. Filgueiras era atendido por Maíra, que levou a mãe, para quem a viagem seria um passeio.

"O que mais me comove e me choca no trágico acidente aéreo em Paraty, onde perderam a vida um Ministro do STF, um empresário-lobista e o seu piloto, são as outras duas vítimas, previamente condenadas ao forçado e providencial esquecimento: a jovem Maíra Panas e sua mãe", escreveu.

Conforme a artista, a hipocrisia que tomou conta da sociedade brasileira "insiste em desconhecer a frieza dos homens poderosos, corrompidos até a medula, que oferecem e aceitam o sexo como moeda de troca."

E que as desculpas são as mais esfarrapadas e ridículas, tentando cobrir o "sol tropical e ardente com a peneira furadíssima do cinismo". Divina destaca que os cadáveres já estavam putrefatos, mas os nomes da "bela jovem e de sua mãe, uma mulher simples do interior do Mato Grosso, ainda não haviam sido divulgados enquanto buscavam uma explicação fajuta para suas presenças no voo da morte".

"O que pensam dos brasileiros? O que acham de nós? Um bando de néscios, de beócios, de ingênuos? Esse trágico acidente mostra tráfico de influência, falta de decoro, promiscuidade nas relações entre poderosos, o uso e o descarte de seres humanos. As grandes vítimas são na verdade, Maíra (menina cheia de sonhos e que trilhou os caminhos tortuosos que a vida, madrastra, abriu para sua beleza exuberante) e sua pobre mãe. Sinto muito por essa flor ceifada no auge de sua juventude, beleza e alegria de viver", afirmou.

Ontem (21), a colunista Nathali Macedo, do Diário do Centro do Mundo também questionou a inversão de valores no humilhante linchamento moral de duas mulheres.  "Não é relevante saber que Maíra batia na janela do avião, tentando, em vão, salvar a própria vida. Não é relevante saber que ela tinha sonhos, etapas incompletas e vontade de viver. O que importa, realmente, é sabermos o que a vítima fazia com o próprio corpo antes de morrer, porque nem mesmo quando estamos mortas nos deixam em paz. Não nos querem apenas mortas, nos querem humilhadas, diminuídas, desmoralizadas, esquecidas. Querem que não nos restem sequer as condolências."

"Sofremos um golpe, congelaram gastos por vinte anos, um Ministro do STF morreu misteriosamente, mas temos dois minutinhos na internet pra xingar de puta essa mulher que cometeu o disparate de viajar com um homem em seu avião particular, só pra não perder o hábito."

Fonte: RBA

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Nota coletiva de posição sobre a ‘Chacina de Campinas’, 04.01.2017. Organizações feministas de todo o país e organizações aliadas somam-se na dor e no repúdio ao assassinato coletivo de mulheres, seguido de suicídio, ocorrido na madrugada do 1 de janeiro, em Campinas-SP. Nesta nota lançam novo alerta feminista ao sistema de justiça, de educação, de assistência social e à midia.

A tragédia anunciada durante uma década. (nota completa com todas as assinaturas)

Era fim de ano, tempo de comemorar a chegada de um novo janeiro e o alento para os horizontes que estavam por vir. O Brasil, porém, amanhecia impactado com a forte repercussão de um crime violento cometido por um homem inconformado com o fim de uma relação. Entre os argumentos para assassinar, o agressor usou, em sua defesa, a vida da mulher e o desejo dela por liberdade. Era 1976, exatamente 30 de dezembro; e a vítima, Ângela Diniz.
Quarenta anos depois, em 1 de janeiro de 2017, tivemos nossa esperança no novo ano abatida por um feminicídio, que levou a violência a outro patamar. Ao assassinar nove mulheres de um mesmo círculo de relações em Campinas (SP), Sidnei Ramis de Araújo indicou que, para lavar sua honra, não bastava apenas matar a ex-companheira, o alvo de seu ódio. Foi necessário acabar com a vida de parentes e amigas.
Além da quantidade de vítimas fatais no crime, a carta deixada pelo agressor confirma a potência letal do ódio a mulheres. Se nos 40 anos que separam os crimes de Doca Street e Sidnei Ramis de Araújo, nós mulheres brasileiras avançamos em direitos, a estrutura de dominação patriarcal – responsável por matar 13 mulheres diariamente no país – conseguiu criar barreiras para que ainda não tenhamos conquistado uma vida plena de direitos.
Uma consulta a arquivos sobre feminicídios indicou esse como primeiro caso em que o assassino constrói uma narrativa em relação à lei que protege mulheres e crianças das agressões domésticas. “Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!”
Além das investigações e a responsabilização de eventuais envolvidos no crime (por ação ou negligência), é necessário refletir sobre como os poderes públicos têm colocado em xeque a Lei Maria da Penha. Apesar de ser uma das nossas maiores conquistas, junto com a a aprovação da lei do Feminicídio, a punição dos agressores e a prevenção concreta dos crimes ainda demandam mobilização social. Uma avaliação do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) apontou que a Lei conseguiu reduzir em 10% os homicídios de mulheres por violência doméstica, mas que ainda há diferentes graus de institucionalização dos serviços protetivos às vítimas pelo país.
Isamara Filier, ao longo de 10 anos, período que coincide com a aprovação da Lei Maria da Penha, registrou cinco boletins de ocorrência contra o ex-companheiro por agressão e ameaça, e também por abuso sexual contra seu filho. Sua morte se anunciava desde 2005. Onze anos depois, com o Estado falhando na prevenção e na proteção, o crime se concretiza.
O desejo de exterminar a maior quantidade possível de mulheres da mesma família – como ficou claro na carta divulgada pela imprensa – é um alerta. O ódio dos agressores de mulheres têm sim potencial para construir grandes tragédias. É com essa realidade que todos os atores sociais – os sistemas de Justiça, de assistência social, e também os de educação e os meios de comunicação – precisam lidar com a violência contra as mulheres. Somos o quinto país que mais assassina mulheres no mundo. Na visão de agressores como Sidnei, esta semana, ou Doca Street, 40 anos atrás, vadias somos todas nós mulheres que lutamos por liberdade e autonomia.
A morte de Isamara, seu filho, amigas e familiares demostra que as Leis não findam em si mesmas. A violência contra as mulheres é um problema estrutural da cultura machista, racista e homo-lesbo-transfóbica, que nega às mulheres o direito a uma vida livre e plena.
Nós – mulheres do movimento feminista organizado – não podemos deixar que a impunidade se perpetue. Comprometemo-nos a cobrar punições de imediato. Em paralelo aos avanços nas legislações, que precisam ser implementadas verdadeiramente, seguimos também na luta pela transformação da sociedade voltada à construção de um país que proteja todas as cidadãs e todos os cidadãos.

Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB)
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)
Coordenação Nacional da Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)
Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas
Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste
Movimento de Mulheres Camponesas
Partida nacional – Construindo a Democracia Feminista
Rede Nacional de Pessoas com HIV e Aids
Rede de Mulheres Negras do Nordeste
Coletivo Nacional de Mulheres do PSOL
AMB Rio, Rio de Janeiro (RJ)
AMB São Paulo (SP)
Articulação Aids Pernambuco, Recife (PE)
Articulação de Mulheres do Amapá (AP)
Articulação de Mulheres Indígenas do Maranhão (AMIMA, MA)
Associação Catarinas, Florianópolis (SC)
Associação de Mulheres Buscando Libertação, Cariacica (ES)
Associação de Mulheres da Serra (ES)
AMB-Mato Grosso do Sul (MS)
Coordenação e Articulação dos Povos Indígenas do Maranhão (MA)
Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM/Brasil)
Diretoria de Políticas para Mulheres da Federação dos Trabalhadores Rurais de Pernambuco (PE)
Fórum de Mulheres do Sertão do Araripe (PE)
Fórum de Mulheres de Jaboatão (PE)
Fórum Cearense de Mulheres (CE)
Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense (PA)
Fórum de Mulheres Maranhense (MA)
Fórum de Mulheres de Imperatriz (MA)
Fórum de Mulheres do Amapá (AP)
Fórum de Mulheres do Distrito Federal (DF)
Fórum de Mulheres do Espírito Santo (ES)
Fórum de Mulheres de Pernambuco (PE)
Fórum Permanente das Mulheres de Manuas (AM)
Fórum de Mulheres do Rio Grande do Norte (RN)
Movimento e Articulação de Mulheres do Estado do Pará (PA)
Movimento Ibiapabano de Mulheres (CE)
Movimento de Mulheres Solidária do Amazonas (AM)
Movimento de Promotoras Legais Populares de Mauá (SP)
Movimento de Mulheres da Floresta – Dandara (AM)
Rede de Mulheres Negras de Pernambuco (PE)
Rede de Mulheres de Terreiro (PE)
Casa da Mulher do Nordeste, Recife (PE)
Casa Chiquinha Gonzaga, Fortaleza – CE
Centro de Direitos Humanos Pe. Josino, Imperatriz (MA)
Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA), Brasília (DF)
Coco de Mulheres, Recife (PE)
Cidadãs Positivas de Pernambuco (PE)
Coletivo Marcha das Vadias Recife (PE)
Coletivo de Mulheres do Calafate, Salvador (BA)
Coletivo de Mulheres de Jaboatão (PE)
Coletivo Maria Vai com as Outras, ES
Coletivo Mulher Vida, Olinda (PE)
Coletivo Alumiá, Mauá (SP)
Cunhã Coletivo Feminista, João Pessoa (PB)
Coletivo de Mulheres Casa Lilás, Reife (PE)
Coletivo de Mulheres Passirenses, Passira-PE
Grupo Cidadania Feminina, Recife (PE)
Espaço Feminista URI HI (AM)
FASE
Grupo Curumim, Recife (PE)
Grupo de Mulheres Jurema, Ouricuri (PE)
Grupo Cultural Femini Nação (PE)
Grupo Mulher Maravilha, Recife e Afogados da Ingazeira (PE)
Grupo Alternativo de Geração de Renda da Economia Solidária, Belém (PA)
GTP+, Recife (PE)
IMAIS, Salvador (BA)
Instituto Papai, Recife (PE)
Instituto Inegra (CE)
Mirin Brasil, Recife (PE)
NEPEM-UFMG, Belo Horizonte (MG)
Núcleo de Mulheres de Roraima, Boa Vista (RR)
N30 Pesquisas, RJ
Redeh, Rio de Janeiro (RJ)
Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Pernambuco, Recife (PE)
Sítio Agatha – Espaço de Agroecologia Militante Feminista Étnico-Racial
SOS Corpo - Instituto Feminista para Democracia, Recife (PE)
Secretaria Estadual de Mulheres do PT (PE)
Secretaria de Mulheres da CUT (CE)
Uialá Mukaji Sociedade de Mulheres Negras, Recife (PE)

Zalika – Maternidade, Parto e Infância, ES

terça-feira, 22 de novembro de 2016

DOCUMENTO FINAL DA MARCHA E DO ENCONTRO “UM ANO DE LAMA E LUTA”

“Só a luta vencerá a lama.” (Dom Geraldo Lyrio Rocha)



Nós, atingidos e atingidas por barragens, organizações sociais brasileiras e internacionais, reunidos neste dia 05 de novembro, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG), viemos nos solidarizar e trazer o máximo de conforto e carinho para os familiares dos que morreram por causa do crime cometido pelo rompimento da Barragem de Rejeito da Samarco (Vale/BHP Billiton), um ano atrás.
Solidarizamo-nos com todas as famílias atingidas, de Regência (ES) a Mariana (MG), que sofrem as graves consequências do crime ocorrido. Recebam, todas e todos, o nosso fraterno abraço.
Grande parte dos que estão aqui marchou desde o dia 31 de outubro, em toda a extensão da Bacia do Rio Doce, fazendo o caminho contrário à lama. Testemunhamos o sofrimento e angústia das pessoas atingidas. Vimos surtos de doenças multiplicando-se aos milhares. As famílias têm medo de beber a água, sacrificam-se indo buscá-la em locais distantes ou gastam seu dinheiro para comprar água mineral. Testemunhamos a enorme angústia, inimaginável tristeza de quem perdeu familiares e amigos, suas referências culturais, sua casa, seu meio de subsistência, o seu emprego e trabalho, os pertences pessoais, os brinquedos das crianças, o rio, a água, animais domésticos, peixes e grande parte da natureza.  
É trágico: a lama está em cada lugar, embaixo da areia na beira do mar, nas encostas, nas estradas, nas plantas, no leito do rio e, com certeza, agora se infiltrando pouco a pouco em todas as pessoas que com ela convivem, respirando, comendo ou bebendo dela.
Afirmamos com absoluta certeza que no Brasil, e em muitos lugares do mundo, houve e há uma grande comoção, um sentimento de dor, de revolta, e ao mesmo tempo de preocupação com a vida humana e com a natureza nesta região atingida. Há uma esperança e luta para que este crime não fique impune e que nunca mais se repita.
Mesmo diante de tanto sofrimento e dor, ao longo de toda a bacia do Rio Doce, testemunhamos a existência de um povo forte, trabalhador e lutador, que sofre, mas que tem esperança, que quer a justiça, quer seus direitos, e para isto está disposto a se organizar e lutar.
Denunciamos o crime cometido pela Samarco (Vale/BHP Billiton), que faz parte do sistema econômico vigente. Os grandes empresários e banqueiros submetem os trabalhadores/as à extraordinária exploração. E são absolutamente negligentes com relação às questões ambientais e sociais, colocando o lucro acima da vida.
Denunciamos ainda que estão em debate no Congresso Nacional Brasileiro leis que podem piorar ainda mais a atual situação dos trabalhadores, pois preveem maiores facilidades nos licenciamentos ambientais para a instalação das grandes obras. Esta lógica só privilegia o lucro dos grandes empresários e banqueiros que matam as pessoas e destroem o meio ambiente.
Denunciamos o atual modelo de mineração do Brasil, que viola as leis ambientais e trabalhistas e que visa a flexibilização das mesmas. Um modelo que contamina rios e nascentes, que consome enormes quantidades de água e energia. Tudo isto subsidiado pelo Estado, enquanto a população tem que arcar com o alto custo para o seu acesso. Este modelo torna o Brasil mero exportador de commodities sem agregar valor e sem desenvolver a indústria nacional.
Denunciamos que toda esta situação é autorizada e protegida pelo Estado em todas as esferas de poder (executivo, legislativo e judiciário).  Em grande parte dos casos, o Estado protege o capital e as grandes empresas e nega os direitos do povo e o adequado tratamento das questões sociais e ambientais, que poderiam prevenir crimes iguais ao ocorrido com a Bacia do Rio Doce.
Vergonhosamente, durante a marcha que fizemos, vimos espiões disfarçados das empresas, policiais militares fortemente armados para coagir os atingidos e proteger os criminosos.
Denunciamos principalmente as empresas Vale e BHP-Billiton, e sua subsidiária Samarco, por este crime. Os relatos nos apontam que há inúmeros indícios de omissão, negligência, desrespeito à vida e à natureza, falta de segurança, falta de acesso à informação, entre tantos outros.
Denunciamos finalmente o “acordão” fraudulento realizado sem a participação do povo atingido e de suas organizações.
Alertamos que há um alto grau de tensão social ao longo de toda a bacia do Rio Doce e que é urgente e necessário o pronto atendimento das demandas apresentadas pela população atingida. Responsabilizamos desde já as empresas e autoridades já nominadas por possíveis incidentes que possam ocorrer, fruto deste alto grau de tensão social, à qual esta população está submetida.
Após um ano do crime, percebemos que em relação aos diretos dos atingidos e trabalhadores pouco foi feito. Diante desta situação, exigimos uma maior agilidade na garantia dos direitos de toda população atingida.
Exigimos a participação popular em todas as decisões e acordos que sejam tomados. E que esta participação seja previamente informada, garantindo o direito de livre organização dos atingidos, sem pressão ou coerção por parte das empresas e das autoridades.
Exigimos que todo povo de Mariana permaneça trabalhando e ganhe para viver bem e sustentar suas famílias com dignidade. São os trabalhadores que produzem grande volume de riqueza. No entanto, o nível de exploração é alto. Nos últimos cinco anos, os trabalhadores da Samarco geraram cerca de treze bilhões de lucro para a companhia, algo em torno de 950 mil reais por trabalhador, por ano. Certamente o salário poderia ser mais valorizado e, mesmo que a empresa esteja temporariamente desativada, nenhum trabalhador necessitaria ser demitido.
Exigimos que o Estado brasileiro e as empresas responsáveis pelo crime paguem a divida social e ambiental com a sociedade brasileira e com os municípios que diminuíram sua arrecadação por causa desse processo criminoso. E que façam a reparação de todas as perdas, colocando todo o seu aparato a favor das famílias atingidas que fazem a justa luta por seus direitos.
Exigimos o pleno atendimento às pautas apresentadas pelos atingidos e suas organizações, e que na implementação de todos os projetos de recuperação seja estimulada e garantida a mais ampla participação popular na solução dos seus problemas, construindo com isso um ambiente propício à autodeterminação popular, com adequada restauração e compensação às perdas havidas.
Exigimos que seja paralisada a construção do Dique S4, o qual inunda o rastro do processo criminoso em Bento Rodrigues e busca apagar a memória do povo; que as ruínas permaneçam lá, intactas, como lembrança desse crime abominável.
Finalmente afirmamos nosso compromisso de fortalecer a organização e a luta dos atingidos e atingidas por barragens em toda a Bacia do Rio Doce. Reafirmamos toda solidariedade às justas ações necessárias para que a vida seja reestabelecida. Que possamos construir um futuro melhor para todos e todas.

Um ano de lama, um ano de luta!
Somos todos atingidos e atingidas!
Brasil, Mariana (MG), 05 de novembro de 2016.

Águas para a vida, não para a morte!
Entidades que assinam o documento:

MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens
Amigos da Terra Brasil
Banda Falamansa
Cantor Zé Geraldo
Centro de Documentación en Derechos Humanos “Segundo Montes Mozo S.J.” (CSMM) / Ecuador
CEPIS – Centro de Educação Popular – Instituto Sedes
Cesta Amigos de la Tierra - El Salvador
CFMEU Mining and Energy (Austrália)
Comitê Solidariedade à luta dos atingidos por barragens e Amigos do MAB dos Estados Unidos
CMP - Central de Movimentos Populares
CNQ – CUT - Confederação Nacional do Ramo Químico da CUT
CNTE - Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação
Confederación General del Trabajo - España
Consulta Popular
CPT - Comissão Pastoral da Terra
Daniel Gaio – Secretario Nacional Meio Ambiente - Central Única dos Trabalhadores – CUT
Desenvolvimento e Paz – Canadá
Deputado Federal Padre João – presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal
Euro-deputado Xavier Benito Ziluaga - Partido Podemos - Estado Espanhol
Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar - MG
FETRAF - Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar
FEMQUIFERT-MG - Federação Mineira dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Plásticas e de Fertilizantes de Minas Gerais
FEQUIMFAR-FS - Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado de São Paulo da Força Sindical
FITEM-CUT - Federação Interestadual dos trabalhadores nas indústrias da extração, pesquisa e prospecção de minérios e metais básicos, metálicos e não metálicos da CUT FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação – MG
FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
FNU - Federação Nacional dos Urbanitários
Fora do Eixo
FUP - Federação Única dos Petroleiros
Greenpeace Brasil
Grito dos Excluídos
Grufides - Perú
IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
IDEX/Milhares de Afluentes - Estados Unidos da América
Jornalistas Livres
Jubileu Sul
LPJ - Levante Popular da Juventude
MAR - Movimento dos Afectados por Represas da América Latina (Movimiento Ríos Vivos Colombia, Movimiento dos Atingidos por Barragens – Brasil, Patagonia sin Represas – Chile, Movimiento Amplio por la dignidad y la justicia – Honduras, Red de Educadores y Educadoras Populares/CMLK – Cuba, Frente petenero contra las represas – Guatemala, Consejo de Pueblos Mayas – CPO Guatemala, Bloque Campesino Indígena Amazónico de Bolivia – BOCINAB, Asociación de pescadores 16 de julio de Cachuela – Bolivia, FUNPROCOOP – El Salvador, Frente Nacional Agrario - El Salvador, Movimiento Popular Patria Grande – Argentina, Rondas Campesinas de Perú,
Otros Mundos Chiapas – México, Bios Iguana – México, Asamblea Veracruzana de Iniciativas y
Defensa Ambiental – LA VIDA- México, Consejo de Pueblos Unidos para la defensa del rio Verde – COPUDEVER – México, Red Nacional en Defensa del Agua - RENDA – PANAMA) Mídia Ninja
MISEREOR - Alemanha
MMM - Marcha Mundial das Mulheres
Movimiento Patria Grande - Argentina
Movimiento Rios Vivos - Colômbia
MPA - Movimento dos Pequenos Agricultores
MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
PJR - Pastoral da Juventude Rural
Plataforma Interamericana de Derechos Humanos, Democracia y Desarrollo (PIDHDD Regional)
Rede de Médicos Populares
Sociedade Sueca pela Preservação da Natureza – Suécia
Sindicato Compañia Minera Spence (Chile)
SINTRACARBON - Sindicato de Trabajadores de la Industria del Carbón – (Colômbia)
SINDIFISCO - Sindicato dos Auditores Fiscais
SINDIPETRO - Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais
SINDÁGUA - Sindicato dos trabalhadores da purificação e distribuição de água em serviço de esgoto do Estado de Minas Gerais
SITRAEMG - Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal no Estado de Minas Gerais
SINDIELETRO - Sindicato dos Trabalhadores Eletricitários de Minas Gerais
Sindicato nº1 Compañia Minera Cerro Colorado (Chile)
Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação de Minas Gerais
SINDUTE - Sindicato Único dos trabalhadores em Educação
TV Drone
Union de Afectados por Texaco - Chevron, Equador
War on Want - Inglaterra



LUTAR E ORGANIZAR, PARA OS DIREITOS CONQUISTAR!